Gostaria de falar sobre um assunto muito importante para mim: religião. Falarei de maneira geral mas, ao longo do texto, posso citar o cristianismo, que é a que eu conheço mais de perto. Longe de mim fazer uma reflexão muito aprofundada sobre isso, apenas contar um pouco das minhas reflexões sobre o assunto. Não que eu saiba de tudo, pois ainda tenho muitas perguntas sem resposta.
Na minha opinião, as pessoas estão esquecendo o real sentido da religião. Já vi pessoas tirando conclusões sobre outras por causa do seu esmalte, maquiagem e roupas. Certo que temos que ter bom senso ao nos vestir, mas a partir disso tirar conclusões sobre a índole de alguém por causa das roupas que usa?
À mim pareceu que as regras superficiais tomaram o lugar de coisas mais importantes e essenciais. Em uma certa época da minha vida, a religião não passava de um conjunto de regras e ser seguido.
Com o tempo, baseado em algumas conversas e leituras, vi que minha visão de religião estava muito errada. Religião significa "religar". Religar ao Sagrado. Religar "à algo" que transcende à condição humana e que nos capacita a realizar coisas que, apenas pela nossa condição humana, não seríamos capazes.
A ideia é que o amor incondicional comova, mobilize, primeiro a nível individual e que, em seguida, isso capacite à fazer o mesmo pelo semelhante. Mobilize a amar e a perdoar, pela experiência de ter sido amado e perdoado. Mobilize a aceitar e a ter compaixão, por ter sido aceito e se sentir perdoado.
Na religião que eu conhecia a princípio eu não consegui enxergar isso. Só via o que eu não podia fazer e como eu era imperfeita, culpada, desajustada. Na minha religião não cabia os meus erros, a minha imperfeição, muito menos a autonomia de pensar no que seria melhor para mim, porque isso já havia sido decidido.
Quando entendi a noção de "religar ao Sagrado", meu ponto de vista mudou. Entendi que a religião deveria me tornar melhor, não pela obrigação, mas pela comoção. Vi que não sou obrigada a nada, mas que tenho o dever de ser responsável com a minha vida e com as dos outros ao meu redor. Vi que a religião começa de dentro para fora. Que ela começa, antes de tudo, com uma reflexão sobre si, um encontro consigo. Essa é uma noção que, infelizmente está se perdendo. As pessoas aceitam. É mais fácil não ter que decidir, não ter que refletir, não se questionar.
Como exigir que milhares de pessoas vivam a religião de uma mesma forma se somos todos tão diferentes? Que todos tenham uma mesma interpretação e ponto de vista sobre um determinado assunto? A tentativa de apontar apenas uma direção levou à criação exagerada de regras. A falta do cultivo da essência da religião está gerando intolerância e exclusão. A religião não é para todos, é apenas para certos grupos que cumprem certas regras. E isso é um erro. Até porque religião não é clube. Às vezes até parece, mas não é.
Como viver bem uma vida sem ter a chance de pensar no que é melhor para si? Sem ter a chance se refletir sobre si? Como fica a autonomia das pessoas que nascem em um meio que regras tão restritas são impostas? Em que não há negociação? - Digo isso em casos extremos. Não defendo a ideia de que todas as pessoas religiosas são assim. Outra coisa: isso não acontece apenas em relação à religião, mas isso é um outro assunto.
Estou defendendo que devemos viver loucamente sem pensar nas consequências? Não. Estou defendendo que para se ter uma boa vida é preciso ter informação e um ponto de vista realista sobre as coisas e, a partir disso, pensar na melhor forma de se viver. Até porque se eu entendo o amor que a religião diz, eu me comovo com esse amor e ele me motiva a cuidar de mim e da humanidade. Sim, da humanidade, porque a partir do momento que se entende isso, todas as pessoas são importantes. Então, não há cabimento em se viver loucamente partindo do princípio que o amor me ensina que eu devo amar e cuidar.
Por que nas práticas religiosas de hoje se encontra tanto julgamento? Exclusão? Quando penso em Jesus, por exemplo, a primeira palavra que me vem a cabeça é "caridade". Ele foi o Ser que mais amou e estendeu a mão que eu conheço. Como a pessoa se diz seguidora de Jesus e saio por aí julgado os outros? Em que momento Ele ensinou isso? De onde as pessoas tiram isso, minha gente?
Outra coisa muito perigosa que vejo por aí é a fomentação de estereótipos. É a divisão da realidade em extremos. Só existe um bem e todo o resto é mal. Quem faz tais coisas é bom e todo o resto do mundo que não faz vai arder no inferno - ok, isso foi um pouco exagerado. Os estereótipos atingem pessoas fora do grupo e outras denominações religiosas. Vamos ser justos: o estereótipo que colocam em cima das pessoas religiosas também é exagerado e injusto. Ele está nos dois lados. Acredito que os estereótipos só existem porque algumas pessoas dão motivo, mas eles não devem ser considerados como regra geral.
As vezes me pergunto se nas práticas religiosas coletivas à um verdadeiro incentivo ao pensamento crítico. O que acontece com uma pessoa que discorda da verdade coletiva? Ela tem que ser convencida de que está errada? Ela é vencida pelo cansaço? Excluída? Por que é tão errado em algumas igrejas pensar diferente? Por que quem pensa diferente é pecador? Certa vez ouvi algo do tipo: "Se um jovem discorda do que a igreja pensa, a gente senta com ele e o convence de que ele está errado". Oi? Como assim?
Se existe uma literatura que fala de uma certa forma de viver a vida, ótimo. Mas que ela seja lida e refletida. Convertida em princípios e não em regras vazias. Que haja uma negociação. Por que, para mim, a religião se adapta, alcança, ela deve ser fértil em vários lugares e com vários tipos de pessoas. Se ela vira apenas regras, era exclui.
Acho que, infelizmente, algumas práticas estão contaminadas e indo pro caminho errado.
Entendi que a religião não me impede de pensar, de ter senso crítico e de pensar no que é melhor para mim. Infelizmente, o formato como a religião é passada hoje em dia, na maioria dos casos, não reforça esse tipo de pensamento e sim, o contrário.
Quando penso no amor que comove, que mobiliza, eu entendo a religião. Eu entendo que a religião salva as pessoas, porque ela ensina a amar. O amor vem primeiro para si, mas não de uma maneira egocêntrica. O amor vem antes para o eu no sentido que deve amar-se, ser paciente consigo e com suas imperfeições para depois conseguir fazer com os outros. A religião entendeu isso antes da psicologia. É uma pena que hoje em dia isso não seja tão óbvio.
A religião que eu conheço fortifica primeiro o eu, porque, só assim, eu consigo amar e ser feliz com o outro. Na religião que eu conheço, cabe as minhas imperfeições, porque sou humana. E isso me faz compreender que os outros também são imperfeitos. E isso torna a vida mais fácil. Claro, sou humana e quando erram comigo eu fico triste, porque isso é inevitável, mas já que meu eu é forte, isso não me abala mais como antes. Saber que há uma justiça superior conforta, mas não justifica a passividade humana diante da vida. Isso não quer dizer que os humanos não devam cuidar de si.
Porque a autonomia está totalmente inclusa na vida religiosa. Como amar e não me importar com os outros? Como amar e não fazer nada em relação aos outros, ao universo, à vida? Se você só vai à igreja, esquece de se importar e tratar bem os outros, conhecer, cuidar e amar verdadeiramente seu próximo e pensa que está tudo bem, você está fazendo isso errado.
Para mim, a religião deve incluir a negociação, o diálogo, a aceitação. Se só isso acontecesse, muita intolerância, conflitos e guerras seriam evitados. Certa vez, lendo "A viagem de Théo", me deparo com a seguinte frase: "Se estivéssemos maduros para a paz, Deus a concederia imediatamente"
A amor verdadeiro salva, sim. Salva da miséria física e emocional, da intolerância, é paciente e promove a mudança. Quem sabe, se procurarmos a essência, o sentido das coisas, sem medo de questionar, sem medo de ser livre , à partir daí o amor mobilize as pessoas e as façam entender da maneira mais bonita, simples e eficaz o real sentido da religião.