terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Qual o sentido da religião?

      Gostaria de falar sobre um assunto muito importante para mim: religião. Falarei de maneira geral mas, ao longo do texto, posso citar o cristianismo, que é a que eu conheço mais de perto. Longe de mim fazer uma reflexão muito aprofundada sobre isso, apenas contar um pouco das minhas reflexões sobre o assunto.  Não que eu saiba de tudo, pois ainda tenho muitas perguntas sem resposta.
     Na minha opinião, as pessoas estão esquecendo o real sentido da religião. Já vi pessoas tirando conclusões sobre outras por causa do seu esmalte, maquiagem e roupas. Certo que temos que ter bom senso ao nos vestir, mas a partir disso tirar conclusões sobre a índole de alguém por causa das roupas que usa?
     À mim pareceu que as regras superficiais tomaram o lugar de coisas mais importantes e essenciais. Em uma certa época da minha vida, a religião não passava de um conjunto de regras e ser seguido. 
      Com o tempo, baseado em algumas conversas e leituras, vi que minha visão de religião estava muito errada. Religião significa "religar". Religar ao Sagrado. Religar "à algo" que transcende à condição humana e que nos capacita a realizar coisas que, apenas pela nossa condição humana, não seríamos capazes.
     A ideia é que o amor incondicional comova, mobilize, primeiro a nível individual e que, em seguida, isso capacite à fazer o mesmo pelo semelhante. Mobilize a amar e a perdoar, pela experiência de ter sido amado e perdoado. Mobilize a aceitar e a ter compaixão, por ter sido aceito e se sentir perdoado. 
    Na religião que eu conhecia a princípio eu não consegui enxergar isso. Só via o que eu não podia fazer e como eu era imperfeita, culpada, desajustada. Na minha religião não cabia os meus erros, a minha imperfeição, muito menos a autonomia de pensar no que seria melhor para mim, porque isso já havia sido decidido.
     Quando entendi a noção de "religar ao Sagrado", meu ponto de vista mudou. Entendi que a religião deveria me tornar melhor, não pela obrigação, mas pela comoção. Vi que não sou obrigada a nada, mas que tenho o dever de ser responsável com a minha vida e com as dos outros ao meu redor. Vi que a religião começa de dentro para fora. Que ela começa, antes de tudo, com uma reflexão sobre si, um encontro consigo. Essa é uma noção que, infelizmente está se perdendo. As pessoas aceitam. É mais fácil não ter que decidir, não ter que refletir, não se questionar.
   Como exigir que milhares de pessoas vivam a religião de uma mesma forma se somos todos tão diferentes? Que todos tenham uma mesma interpretação e ponto de vista sobre um determinado assunto? A tentativa de apontar apenas uma direção levou à criação exagerada de regras. A falta do cultivo da essência da religião está gerando intolerância e exclusão. A religião não é para todos, é apenas para certos grupos que cumprem certas regras. E isso é um erro. Até porque religião não é clube. Às vezes até parece, mas não é.
     Como viver bem uma vida sem ter a chance de pensar no que é melhor para si? Sem ter a chance se refletir sobre si? Como fica a autonomia das pessoas que nascem em um meio que regras tão restritas são impostas? Em que não há negociação? - Digo isso em casos extremos. Não defendo a ideia de que todas as pessoas religiosas são assim. Outra coisa: isso não acontece apenas em relação à religião, mas isso é um outro assunto.
    Estou defendendo que devemos viver loucamente sem pensar nas consequências? Não. Estou defendendo que para se ter uma boa vida é preciso ter informação e um ponto de vista realista sobre as coisas e, a partir disso, pensar na melhor forma de se viver. Até porque se eu entendo o amor que a religião diz, eu me comovo com esse amor e ele me motiva a cuidar de mim e da humanidade. Sim, da humanidade, porque a partir do momento que se entende isso, todas as pessoas são importantes. Então, não há cabimento em se viver loucamente partindo do princípio que o amor me ensina que eu devo amar e cuidar.
   Por que nas práticas religiosas de hoje se encontra tanto julgamento? Exclusão? Quando penso em Jesus, por exemplo, a primeira palavra que me vem a cabeça é "caridade". Ele foi o Ser que mais amou e estendeu a mão que eu conheço. Como a pessoa se diz seguidora de Jesus e saio por aí julgado os outros? Em que momento Ele ensinou isso? De onde as pessoas tiram isso, minha gente?
    Outra coisa muito perigosa que vejo por aí é a fomentação de estereótipos. É a divisão da realidade em extremos. Só existe um bem e todo o resto é mal. Quem faz tais coisas é bom e todo o resto do mundo que não faz vai arder no inferno - ok, isso foi um pouco exagerado. Os estereótipos atingem pessoas fora do grupo e outras denominações religiosas. Vamos ser justos: o estereótipo que colocam em cima das pessoas religiosas também é exagerado e injusto. Ele está nos dois lados. Acredito que os estereótipos só existem porque algumas pessoas dão motivo, mas eles não devem ser considerados como regra geral.  
  As vezes me pergunto se nas práticas religiosas coletivas à um verdadeiro incentivo ao pensamento crítico. O que acontece com uma pessoa que discorda da verdade coletiva? Ela tem que ser convencida de que está errada? Ela é vencida pelo cansaço? Excluída? Por que é tão errado em algumas igrejas pensar diferente? Por que quem pensa diferente é pecador? Certa vez ouvi algo do tipo: "Se um jovem discorda do que a igreja pensa, a gente senta com ele e o convence de que ele está errado". Oi? Como assim? 
  Se existe uma literatura que fala de uma certa forma de viver a vida, ótimo. Mas que ela seja lida e refletida. Convertida em princípios e não em regras vazias. Que haja uma negociação. Por que, para mim, a religião se adapta, alcança, ela deve ser fértil em vários lugares e com vários tipos de pessoas. Se ela vira apenas regras, era exclui. 
    Acho que, infelizmente, algumas práticas estão contaminadas e indo pro caminho errado. 
     Entendi que a religião não me impede de pensar, de ter senso crítico e de pensar no que é melhor para mim. Infelizmente, o formato como a religião é passada hoje em dia, na maioria dos casos, não reforça esse tipo de pensamento e sim, o contrário. 
  Quando penso no amor que comove, que mobiliza,  eu entendo a religião. Eu entendo que a religião salva as pessoas, porque ela ensina a amar. O amor vem primeiro para si, mas não de uma maneira egocêntrica. O amor vem antes para o eu no sentido que deve amar-se, ser paciente consigo e com suas imperfeições para depois conseguir fazer com os outros. A religião entendeu isso antes da psicologia. É uma pena que hoje em dia isso não seja tão óbvio.
   A religião que eu conheço fortifica primeiro o eu, porque, só assim, eu consigo amar e ser feliz com o outro. Na religião que eu conheço, cabe as minhas imperfeições, porque sou humana. E isso me faz compreender que os outros também são imperfeitos. E isso torna a vida mais fácil. Claro, sou humana e quando erram comigo eu fico triste, porque isso é inevitável, mas já que meu eu é forte, isso não me abala mais como antes. Saber que há uma justiça superior conforta, mas não justifica a passividade humana diante da vida. Isso não quer dizer que os humanos não devam cuidar de si. 
   Porque a autonomia está totalmente inclusa na vida religiosa. Como amar e não me importar com os outros? Como amar e não fazer nada em relação aos outros, ao universo, à vida? Se você só vai à igreja, esquece de se importar e tratar bem os outros, conhecer, cuidar e amar verdadeiramente seu próximo e pensa que está tudo bem, você está fazendo isso errado.   
   Para mim, a religião deve incluir a negociação, o diálogo, a aceitação. Se só isso acontecesse, muita intolerância, conflitos e guerras seriam evitados. Certa vez, lendo "A viagem de Théo", me deparo com a seguinte frase: "Se estivéssemos maduros para a paz, Deus a concederia imediatamente"
    A amor verdadeiro salva, sim. Salva da miséria física e emocional, da intolerância, é paciente e promove a mudança. Quem sabe, se procurarmos a essência, o sentido das coisas, sem medo de questionar, sem medo de ser livre , à partir daí o amor mobilize as pessoas e as façam entender da maneira mais bonita, simples e eficaz o real sentido da religião.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Choque de realidade.

      Tenho uma teoria sobre a fase dos vinte e poucos anos. Que, nela, a gente passa por uma depressão necessária. Ela começa com uma incerteza do que se está fazendo da vida e parte para um momento deprimente que vem da constatação que não fizemos nada de grandioso até então. Uma sensação de que o plano era outro. De que as expectativas não se realizaram. De que é preciso muito mais esforço que o imaginado para botar a vida pra frente.
       Há cinco anos atrás, a minha visão do que a vida seria era o seguinte: eu ia passar no vestibular de primeira, no curso certo, cursar a faculdade bem linda no tempo planejado, começar a trabalhar bem feliz, encontrar o homem da minha vida, casar, ter filhos e ser feliz para sempre. (Qualquer semelhança com os contos de fadas contados à exaustão na infância e com o modelo social impregnante é mera coincidência)
     Hoje vejo que não aconteceu nada disso. Absolutamente nada. A vida não é assim tão linear, tão previsível e tão "feliz pra sempre". 
     Eu não faço meu curso no tempo. Há cinco anos atrás eu não tinha dimensão do dinheiro envolvido em fazer uma faculdade particular. Percebi que meu caminho na universidade, até agora, foi repleto de períodos de letargia, desânimo e de "que que eu tô fazendo aqui?". Foi repleto de dúvidas se eu queria aquilo para a minha vida, sobre o alcance da minha profissão e alguns momentos de impregnação do ambiente da universidade.
        Percebi que talvez aquilo com que eu sonhei tanto tempo quem sabe não seja o melhor para mim. Que existem vários objetivos incluídos em gostar de algo. E gostar de algo não significa necessariamente trabalhar com isso.
      Percebi que posso trabalhar não apenas com algo relacionado com o que eu estudo e que isso é magnífico. Descobri que sou capaz de fazer coisas diferentes daquelas que sonhei passar a minha vida toda fazendo e que isso amplia os horizontes. 
      Descobri que o mercado de trabalho não é fácil. Que está cheia de pessoas hostis. Que levam os valores do capitalismo para o convívio humano. 
     Descobri que lidar com pessoas em geral não é fácil. Que muitas delas não te tratam bem. Que jogam os problemas delas em cima de você, mesmo você não tendo nada a ver. Que se estressam desnecessariamente. Que fazem confusão por coisas fúteis. Que são paranóicas e por aí vai.
Aprendi que você pode sofrer violências convivendo com algumas pessoas. A violência vem de várias formas. Com olhares, palavras, gestos, tapas... ideais e por aí vai. 
     Que que eu faço? Fico aqui reclamando da vida? Sim, já fim muito isso, mas hoje faço diferente. É preciso ser muito forte para viver nesse mundo. Forte como uma rocha. Aprender a passar por essas coisas sem desmoronar. Se proteger emocionalmente. Estou aprendendo, a duras penas.
    O mundo é cheio de burocracias e coisas chatas, que deverias ser simples e melhorar a vida de todos, mas que não são simples e nem melhoram a vida das pessoas. Você é obrigado a passar por elas para conseguir coisas mais importantes. No meu caso, eu me estresso à ponto de me tremer de raiva. Odeio. Burocracias.   
    Aprendi que o amor também não é tão simples. Que pode haver alguns atritos em sua busca. Que às vezes precisamos abrir mão de algumas idealizações para aceitar a pessoa amada como ela é. Que amar estar mais ligado à luta que ao conforto. O amor nem sempre é refúgio, muitas vezes sim, mas nem sempre. Ele é muito mais  especialista em te tirar da zona de conforto, pois para amar bem, você precisa ser forte e amadurecer. E isso não é fácil... nem confortável.
    Descobri que não posso ter certeza de nada. Não posso ter certeza do que vai acontecer daqui a cinco anos, porque não sei nem o que vai acontecer amanhã. Aprendi que só posso viver um dia, um momento de cada vez, seguir em uma direção e saber que ela pode  mudar quando eu menos espero. E que isso não necessariamente é ruim. Mas isso pode ser terrivelmente incômodo. Pode te tirar o chão. Pode te forçar a buscar uma nova estrutura. E para buscá-la, você tem que, em certa medida, desmoronar sua estrutura anterior.
   Nesses últimos cinco anos vi meus sonhos perfeitos desmoronarem e uma realidade que parece sombria aparecer na minha frente. Vi uma realidade dura que minhas idealizações não imaginavam que existia. Me vi diante da necessidade de abrir mãos de alguns desejos porque eles nunca se realizariam. E, meu Deus, como isso é difícil. Aceitar a realidade pode doer.
   Vi que eu vou precisar lutar muito pela vida. Que vou ter que me adaptar há uma realidade imperfeita e um pouco limitada. Vi que as coisas, na realidade, são mais difíceis e que eu vou ter que me adaptar em relação à isso. Vi que algumas coisas se impõem. Vi que é muito bom ter escolhas, mas que algumas coisas são obrigações e é melhor se adaptar a elas que lutar contra elas. 
    Vi que as pessoas podem ser cruéis. Que a vida pode ser difícil. Que amar pode não ser fácil. Que algumas vezes temos que mudar de sonhos e que a vida pode ir por um caminho inesperado. Isso pode dar uma certa sensação de insegurança. Que não temos garantia. E de fato, não temos. A vida pode ser efêmera. Temos cada momento, que deve ser vivido com intensidade e responsabilidade. 
   Parece que nada vai durar. Mas quem sabe isso seja bom. Tenho a chance de fazer meu caminho e, para isso, tenho muitas possibilidades. Dividida entre o desejo do conforto de ter algo consolidado e o aventura de construir algo novo, que não sei o que vai ser, que ainda vai se revelar.