Tenho uma teoria sobre a fase dos vinte e poucos anos. Que, nela, a gente passa por uma depressão necessária. Ela começa com uma incerteza do que se está fazendo da vida e parte para um momento deprimente que vem da constatação que não fizemos nada de grandioso até então. Uma sensação de que o plano era outro. De que as expectativas não se realizaram. De que é preciso muito mais esforço que o imaginado para botar a vida pra frente.
Há cinco anos atrás, a minha visão do que a vida seria era o seguinte: eu ia passar no vestibular de primeira, no curso certo, cursar a faculdade bem linda no tempo planejado, começar a trabalhar bem feliz, encontrar o homem da minha vida, casar, ter filhos e ser feliz para sempre. (Qualquer semelhança com os contos de fadas contados à exaustão na infância e com o modelo social impregnante é mera coincidência)
Hoje vejo que não aconteceu nada disso. Absolutamente nada. A vida não é assim tão linear, tão previsível e tão "feliz pra sempre".
Eu não faço meu curso no tempo. Há cinco anos atrás eu não tinha dimensão do dinheiro envolvido em fazer uma faculdade particular. Percebi que meu caminho na universidade, até agora, foi repleto de períodos de letargia, desânimo e de "que que eu tô fazendo aqui?". Foi repleto de dúvidas se eu queria aquilo para a minha vida, sobre o alcance da minha profissão e alguns momentos de impregnação do ambiente da universidade.
Percebi que talvez aquilo com que eu sonhei tanto tempo quem sabe não seja o melhor para mim. Que existem vários objetivos incluídos em gostar de algo. E gostar de algo não significa necessariamente trabalhar com isso.
Percebi que posso trabalhar não apenas com algo relacionado com o que eu estudo e que isso é magnífico. Descobri que sou capaz de fazer coisas diferentes daquelas que sonhei passar a minha vida toda fazendo e que isso amplia os horizontes.
Descobri que o mercado de trabalho não é fácil. Que está cheia de pessoas hostis. Que levam os valores do capitalismo para o convívio humano.
Descobri que lidar com pessoas em geral não é fácil. Que muitas delas não te tratam bem. Que jogam os problemas delas em cima de você, mesmo você não tendo nada a ver. Que se estressam desnecessariamente. Que fazem confusão por coisas fúteis. Que são paranóicas e por aí vai.
Aprendi que você pode sofrer violências convivendo com algumas pessoas. A violência vem de várias formas. Com olhares, palavras, gestos, tapas... ideais e por aí vai.
Que que eu faço? Fico aqui reclamando da vida? Sim, já fim muito isso, mas hoje faço diferente. É preciso ser muito forte para viver nesse mundo. Forte como uma rocha. Aprender a passar por essas coisas sem desmoronar. Se proteger emocionalmente. Estou aprendendo, a duras penas.
O mundo é cheio de burocracias e coisas chatas, que deverias ser simples e melhorar a vida de todos, mas que não são simples e nem melhoram a vida das pessoas. Você é obrigado a passar por elas para conseguir coisas mais importantes. No meu caso, eu me estresso à ponto de me tremer de raiva. Odeio. Burocracias.
Aprendi que o amor também não é tão simples. Que pode haver alguns atritos em sua busca. Que às vezes precisamos abrir mão de algumas idealizações para aceitar a pessoa amada como ela é. Que amar estar mais ligado à luta que ao conforto. O amor nem sempre é refúgio, muitas vezes sim, mas nem sempre. Ele é muito mais especialista em te tirar da zona de conforto, pois para amar bem, você precisa ser forte e amadurecer. E isso não é fácil... nem confortável.
Descobri que não posso ter certeza de nada. Não posso ter certeza do que vai acontecer daqui a cinco anos, porque não sei nem o que vai acontecer amanhã. Aprendi que só posso viver um dia, um momento de cada vez, seguir em uma direção e saber que ela pode mudar quando eu menos espero. E que isso não necessariamente é ruim. Mas isso pode ser terrivelmente incômodo. Pode te tirar o chão. Pode te forçar a buscar uma nova estrutura. E para buscá-la, você tem que, em certa medida, desmoronar sua estrutura anterior.
Nesses últimos cinco anos vi meus sonhos perfeitos desmoronarem e uma realidade que parece sombria aparecer na minha frente. Vi uma realidade dura que minhas idealizações não imaginavam que existia. Me vi diante da necessidade de abrir mãos de alguns desejos porque eles nunca se realizariam. E, meu Deus, como isso é difícil. Aceitar a realidade pode doer.
Vi que eu vou precisar lutar muito pela vida. Que vou ter que me adaptar há uma realidade imperfeita e um pouco limitada. Vi que as coisas, na realidade, são mais difíceis e que eu vou ter que me adaptar em relação à isso. Vi que algumas coisas se impõem. Vi que é muito bom ter escolhas, mas que algumas coisas são obrigações e é melhor se adaptar a elas que lutar contra elas.
Vi que as pessoas podem ser cruéis. Que a vida pode ser difícil. Que amar pode não ser fácil. Que algumas vezes temos que mudar de sonhos e que a vida pode ir por um caminho inesperado. Isso pode dar uma certa sensação de insegurança. Que não temos garantia. E de fato, não temos. A vida pode ser efêmera. Temos cada momento, que deve ser vivido com intensidade e responsabilidade.
Parece que nada vai durar. Mas quem sabe isso seja bom. Tenho a chance de fazer meu caminho e, para isso, tenho muitas possibilidades. Dividida entre o desejo do conforto de ter algo consolidado e o aventura de construir algo novo, que não sei o que vai ser, que ainda vai se revelar.
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