Hoje senti que algo estava errado. Eu estava inquieta, alguma coisa estava fora do lugar. Pensei um pouco e cheguei à conclusão que eu estava com saudade... de mim mesma. Eu estava longe de mim e estava querendo voltar, encontrar comigo e conversar um pouco.
Vi também quando exatamente isso aconteceu: quinta-feira. Foi o dia que eu me perdi de mim mesma. Foi o livro. Li um livro que mexeu muito comigo e confundi "esfriar a cabeça" com ""esquecer" de tudo o que conseguir, inclusive de si".
E então resolvi fazer uma caminhada. Não sabia porque, mas queria dar uma caminhada. Fazia muito tempo que não saia para andar e, sem entender bulhufas, saí.
Fui com uma pergunta na cabeça: "Qual a sentido da vida?" . Perguntinha capciosa, não? Qual o objetivo disso tudo?
E então, comecei a observar o caminho: a calçada, as diferenças entre elas, as plantinhas dentro das casas - amo plantinhas -, os enfeites que cada morador escolhia para suas varandas. E foi nesse momento que descobri que a vida não era sem sentido, muito pelo contrário, ela era repleto de sentido. Tudo, exatamente tudo, tinha um sentido. Vi que o sentido pulsava em cada detalhe, em cada objeto, em cada mínima coisa que eu via, que eu sentia.
Parei pra pensar em como eu havia chegado àquele ponto, de me perder de mim mesma. E cheguei à conclusão que eu sempre me perdi, que eu sempre me sabotei, sempre fui a carrasca de mim mesma. Não o tempo todo, mas com certa frequência. Entendi a tal frase "os piores inimigos somos nós mesmos". Me atentei para o fato de que a nossa própria mente nos prega peças e às vezes é melhor tirar algumas coisas por menos.
Quantas vezes minha mente me fazia acreditar que eu precisava de coisas que eu realmente não precisava? Eu não precisava de tantos doces, não preciso de certos vícios, de certas manias, não preciso comer alguma coisa entre o almoço e o lanche da tarde e por aí vai. Me dei conta de que quando a gente reconhece e se liberta desses pequenos enganos, somos mais felizes, mais nós mesmos, somos quem realmente queremos ser, porque, muitas vezes, os desejos são enganosos. Nos faz fazer coisas que nem sempre queremos fazer, que nem sempre é essencial. Que são fugas. Fugas de coisas maiores, mais importantes... e mais difíceis de serem encaradas.
Voltando à minha pergunta inicial: qual era o sentido da minha vida? Recentemente, fiquei em dúvida se eu realmente queria exercer aquilo que eu estudava. E foi aí que essa pergunta começou. Mas logo que vi que aqui não era uma questão de profissão. Era uma questão muito maior do que essa. Era o que eu ia fazer com a minha vida enquanto pessoa. Cheguei naquela velha pergunta: "O que me faz feliz?", porque, entendi, que enquanto eu não respondesse essa pergunta, eu sempre teria a impressão de que alguma coisa está errada.
Entendi que a vida era como aquela caminhada. Saí de casa apenas com uma leve impressão para onde iria. Mas entendi que, acima de tudo, o mais importante não foi a chegada, foi o trajeto. Foi senti o chão abaixo dos pés em cada passo, foi sentir o sol esquentando na pele, foi sentir a brisa, foi olhar as flores e tudo o mais. Curtir cada pequena coisa foi o melhor espetáculo daquela caminhada. Foi isso o que importou. Porque na minha caminhada, eu não tinha um objetivo, eu tinha cada momento e cada um deles foi especial. E foi melhor assim. Se eu tivesse um objetivo, eu teria ficado feliz só uma vez. Mas, ao invés disso, eu me atendei para a pluralidade de coisas que chegavam até a mim e , por isso, eu fiquei feliz várias vezes.
Assim como na vida, na minha caminhada também vi coisas desagradáveis. Tinha lixo, poluição, alguns odores não muito bons, mas não é assim também a vida? Quantas vezes temos que conviver com atos de pessoas, com comportamentos e coisas que incomodam? Isso faz parte da vida. Sofrer faz parte da vida, se incomodar com algumas coisas faz parte da vida. Não é uma questão de fugir ou negar o sofrimento, é acolhê-lo. É entender que isso simplesmente acontece. Mas é também aprender a se libertar dele e dosar se ele vale as suas consequências. Se vale à pena vomitar em cima de alguém que não tem nada ver as suas frustrações. Percebi recentemente que isso é uma coisa muito, muito comum. Infelizmente. É ver que a vida deve ser maior que as coisas ruins que acontecem, afinal, o objetivo é ser feliz. É não perder a chance de ser feliz com a bobagem que for para ficar pensando ou se preocupando além do tanto que realmente precisa.
Entendi que o sentido da vida não é ter coisas, ter uma profissão ou fazer uma atividade especifica. O sentido da vida vive por si mesmo, independente do que você faça, embora as duas coisas possam estar bem ligadas. Assim como na minha caminhada, a felicidade estava não em uma coisa só, mas em várias coisas, em momentos.
Entendi que a felicidade pode estar em pequenas coisas: em comer algo que te faz bem, em ler um livro e não se preocupar em quanto tempo você vai levar para fazer isso, em brincar com seu cachorro - eu não tenho cachorro, mas brinco com o cachorro dos outros - ou em tantas outras pequenas coisas diárias.
A felicidade está em mérito, carreira, dinheiro? Pode até se ter alguma felicidade dessas coisas, mas acho que a felicidade não deve depender dessas coisas. Você é um ser humano que vale por ser um ser humano e não pelo o que você faz. Se você faz coisas boas para a sociedade, melhor ainda. Mas uma pessoa como eu, que ainda não descobriu o grande sentido da vida, sei que não tenho que me sentir mal por isso. Porque eu não sou a carreira que ainda não descobri, eu não sou os prêmios que vou ganhar ou que vou deixar de ganhar, eu não sou os méritos que terei no futuro. Eu sou um ser humano e como todo ser humano, mereço ser feliz, mereço respeito e tenho, como dever ao universo - vamos dizer assim, mas no lugar de universo, poderiam ter vários outros termos - respeitar os outros seres humanos que também merecem ser feliz e lutar para que o meu prazer não seja a dor de outra pessoa. Porque eu também já entendi que a compaixão é um sentimento muito nobre. Ela nos conecta com os outros e com o universo, de uma forma que você passa a ser preocupar não apenas com a sua felicidade, mas com a felicidade dos outros. Você cuida não apenas de si, você cuida também dos outros, de uma forma não egocêntrica. Porque o sofrimento é algo universal e, do mesmo jeito que você sofre, o outro também sofre.
Um dia vou descobrir minha profissão. Ainda não sei qual. Nela, terei alguns méritos, não porque tenha que provar algo para alguém, mas porque eu sei que os meus méritos melhorarão a vida de outros e esse deve ser o sentido, independente do que eu faça. Porque aprendi que a felicidade de disfarça e acho que ela está muito mais nas pequenas coisas que nas grandes.
Descobri também como é importante a gente reconhecer as armadilhas que nós mesmos criamos. É muito importante que a gente se descubra. Do contrário, atribuímos aos outros coisas que nós mesmos fazemos. Descobri que a vida não é pesada. Viver não é um fardo. E se está pesado, é porque estamos indo no caminho errado.
Entendi, por fim, que o sentido da vida se descobre, se desenvolve e se transforma, assim como a própria vida. Vi que não há nada de errado em ter dúvidas. Viver é essa descoberta. E o que seria das descobertas sem as dúvidas?
A felicidade pode estar em pequenas coisas. Em pequenos momentos, em pequenas grandes coisas. O que existem são momentos e a gente deve ser permitir. Fazer de tudo para sermos felizes, todos os dias.
Nenhum comentário:
Postar um comentário